Encerramento da I Jornada em Roraima debate experiências de Athis


Sob o olhar do profissional da arquitetura e do urbanismo, o encerramento da I Jornada da Rede Amazônia em Roraima: Regularizar, Morar, Conviver e Preservar foi marcado pelo relato de duas experiências de assistência técnica para habitação de interesse social realizadas em Brasília, na capital federal, e em Sergipe, Nordeste brasileiro. O arquiteto Luiz Eduardo Sarmento, do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), abordou as experiências realizadas na região urbana e periférica do Distrito Federal com as famílias de baixa renda, ressaltando as leituras distintas entre a arquitetura da capital e das cidades satélites, e Daniel Almeida Leão, da Federação Nacional de Estudantes de Arquitetura (Fenea), na Universidade Federal de Sergipe (UFS), relatou a experiência inclusiva do Diretório Central dos Estudantes da academia, enquanto uma ação propositiva do movimento de uma universidade popular e o seu olhar por uma cidade mais inclusiva e participativa.

Luiz Eduardo Sarmento relatou a experiência de prestação de assistência técnica Lei Nº 11.888 que abre um campo de oportunidades aos trabalhos de arquitetos na área de regularização para famílias de baixa renda na região urbana do Distrito Federal. “Apenas 10% da população de Brasília moram no plano piloto, idealizado para ser a capital do país, com as estruturas públicas do poder central, enquanto 90% da população estão em cidades satélites e longe de uma infraestrutura urbana que assegure qualidade de vida. A Favela do Sol Nascente, uma das maiores do Brasil, está a 35 quilômetros da Praça dos Três Poderes”, assinalou.

Neste contexto, Sarmento denunciou a gentrificação relatando que os candangos, construtores de Brasília na década de 50, foram empurrados para fora do plano piloto, além das violências praticadas com a destruição de habitações por agentes do Estado nas famigeradas e violentas reintegrações de posse. “A expectativa de vida do rico em Brasília é de 81 anos. A do pobre é de 50 anos. No plano piloto se encontra mais brancos, enquanto os negros estão na periferia, porém existe uma resistência e é onde a assistência técnica produziu experiências de políticas públicas urbanísticas inclusivas e importantes”, assinalou.

O arquiteto relatou os trabalhos desenvolvidos pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional do Distrito Federal (CODHAB) e as ações assistência técnica, regularização e de organização participativa com as comunidades Santa Luzia e do Sol Nascente, que alcançaram melhorias habitacionais a partir de um olhar social do trabalho da arquitetura e do urbanismo de forma inclusiva. “A cabeça pensa onde o pé pisa”, asseverou ao enumerar diversas ações e programas em funcionamento que atuam em defesa da assistência técnica, tais como Favelar, Vivenda, Moradia Digna, Arquitetura na Periferia, Arquiteto de Família e muitos outros, operando como agentes efetivos da implantação de regularização fundiária urbana.

Por sua vez, Daniel Almeida Leão, da Fundação Nacional de Estudantes de Arquitetura (FeNEA), graduando em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Sergipe (UFS), resgatou a construção do Diretório Central dos Estudantes da UFS, enquanto militante do movimento de uma universidade popular, relatando as diferenças entre a formação direcionada do aluno para o mercado e não para uma leitura urbana e social da construção do espaço urbano na cidade. “A extensão universitária alcança apenas os 7% da população local, enquanto a extensão de caráter popular trabalha com demandas urbanísticas reais, além estar aliadas aos movimentos sociais para emancipação popular da sociedade. Não negamos o papel do Estado, porém diferenciamos os olhares e não caímos no assistencialismo e nem no empreendedorismo social”, refletiu.

Daniel falou das experiências sociais emergenciais tais como Uma mão lava a outra, com a construção de pias populares para lavar as mãos e combater a pandemia da Covid-19, relatou ações em conjunto com Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e o intercâmbio de conhecimento com o I Fórum de Assistência Técnica Popular do Nordeste, além da parceria com a organização global não governamental, Habitat para a Humanidade Brasil, que tem como causa a promoção da moradia como um direito humano fundamental.

Ele explicou que o Projeto Trapiche, um Escritório Modelo de Arquitetura e Urbanismo da UFS, surge da necessidade de estabelecer uma interação entre a academia, a cidade e as comunidades onde o campus está inserido e prestar assistência técnica para reforma e construção de moradias, além de orientar para a preservação do patrimônio histórico da cidade tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), além de trabalhar com as comunidades no centro histórico e nas periferias da cidade.

A mediação da mesa foi realizada Claudia Campos, coordenadora do GTE-RR em Roraima, que avaliou o I Fórum como um grande processo participativo envolvendo segmentos sociais integrados e comprometidos com a regularização e superação de conflitos socioambientais por meio dos campos da pesquisa, ensino e extensão no Estado. A pesquisadora ressaltou a estruturação do grupo estadual de trabalho dentro da UFRR, com o apoio da reitoria, e enfatizou a importância de escolher um lado social para dar continuidade à luta pelo direto à cidade em Roraima. “Agora vamos avançar na consolidação do GTE-RR, ampliar os diálogos sociais locais e definir os primeiros passos do nosso trabalho de campo no Estado”, sinalizou.


Texto: Leandra Souza e Mariana Maia - Fotos: Arquivo da pesquisadora e da CRF-UFPA

0 visualização0 comentário